A propósito da mensagem de Ano Novo do Presidente Sarkozy


Embora sabendo que as presidenciais francesas se aproximam e que o presidente Nicolas Sarkozy está agora na fase em que os políticos mais despudoradamente enganam, não deixei de registar com muito interesse três ideias que ressaltam do seu discurso de ano novo:

A primeira, tem a ver com a intenção de dar formação aos desempregados.

Em França, tal como em Portugal, há pessoas que estão no desemprego porque, pura e simplesmente, a sua profissão já não tem interesse para os empregadores, ou porque existem tantos trabalhadores com a mesma especialidade que se torna dificílimo conseguirem um emprego.

Assim sendo, faz todo o sentido dar a esses desempregados formação numa área em que seja mais fácil voltarem ao mercado do trabalho.

No nosso país o tão controverso programa “Novas Oportunidades”, agora em fase de avaliação, visava exatamente esse objetivo.

Espero, por isso, que tal programa tenha continuidade, no sentido de proporcionar aos desempregados formação séria, que podendo significar, quiçá, algum sacrifício para quem a recebe, constitua, de facto, uma mais valia para si.

Refiro-me a formação bem planeada, tendo em conta as necessidades do país e do mercado de trabalho, articulada com os potenciais empregadores.

Um trabalho bem desenvolvido nesta vertente, ao mesmo tempo que ocupa os desempregados, dá um sentido às suas vidas, melhora a sua cidadania e aumenta a sua auto-estima, não deixará também de produzir resultados positivos no que diz respeito à redução das elevadas taxas de desemprego que presentemente se verificam no nosso país.

A segunda ideia lançada por Sarcozy foi a de se tentar arranjar mais fontes de financiamento para a Segurança Social.

O financiamento daquela instituição tem assentado, essencialmente, sobre o trabalho, o qual tem vindo a diminuir consistentemente na generalidade dos países europeus, mesmo em situações em que há crescimento económico, ou seja, maior riqueza.

O presidente francês sugere como fonte de financiamento adicional das atividades sociais do Estado uma taxa de IVA especial sobre as importações, muitas delas resultantes da deslocalização do trabalho francês para outros países.

Tal medida, concretizando-se, vai, com certeza, ser apelidada de protecionista, mas no meu entender faz também todo o sentido.

Efetivamente, grande parte do desemprego existente na Europa resulta da invasão do nosso mercado por produtos fabricados em países de mão de obra barata, não raras vezes verdadeiramente escrava, em que não são respeitados os mais elementares direitos dos trabalhadores.

Se nada for feito para corrigir esta situação, a Europa terá que baixar constantemente o nível de vida das suas populações, até poder concorrer com esses países. Note-se que até a própria China, onde os trabalhadores viram a sua vida melhorar um pouco nos últimos anos, já começou a perder encomendas para países de mão-de-obra ainda mais barata, como é o caso do Bangladesh e do Vietnam.

Criar uma taxa de IVA especial sobre as importações vai estimular a produção e o emprego internos e permitir à Europa continuar a manter elevados níveis de qualidade de vida.

Os europeus poderão assim continuar a ajudar também, por outras vias, os países cujas exportações sejam mais penalizadas por estas medidas. A verdade é que empobrecer a Europa, nem é bom para este continente, nem para aqueles países que têm beneficiado da sua ajuda.

A terceira ideia apresentada por Sarcozy é a tributação das transações financeiras, fazendo contribuir para a recuperação da crise os maiores culpados da mesma. Esta é certamente uma medida de elementar justiça, já adotada em Portugal, embora possa conduzir a indesejáveis fugas de capitais que só um acordo internacional sobre esta matéria poderia evitar.

Enfim, registei com algum agrado que tenham sido colocadas sobre a mesa, apenas para França, é certo, mas por um dos líderes europeus que mais vai influenciar o nosso futuro, algumas ideias que vão além da redução do deficit a todo o custo.

Nestes primeiros dias do ano faço votos de que em 2012 haja em Portugal muitas ideias para se ultrapassarem as atuais dificuldades económicas e,sobretudo, que essas ideias sejam concretizadas e sejam bem sucedidas.

Um Bom ano para todos.

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3 comentários

  1. É um contra-senso vivermos e convivermos com um modelo capitalista e diariamente estar a discordar dele. Há outros modelos no mundo não capitalistas. As regras são conhecidas. Há investidores que investem para lucrar. Há intermediários que intermedeiam para lucrar. Há governos que não conhecem outra saída para as crises económicas dos seus países que não seja a criação de novos impostos ou o agravamento dos existentes. O problema é resolver a crise de valores, a crise de ideias, a crise de atitude. Os portugueses estão em crise e não é só económica. Em Portugal temos tendência de negativizar tudo sem primeiro entendermos o que estamos a negativizar. O programa “Novas Oportunidades” está suportado num bom princípio. O computador “Magalhães” está suportado num bom princípio. Porque será que resistimos sempre às novas ideias sem sequer tentarmos entendê-las? Porque será que logo que aparece uma nova ideia neste país só nos sentimos felizes a negativizá-la ou até a destruí-la? Esta é a nossa verdadeira crise: o negativismo! E nem sequer simpatizo com nenhuma das atuais vedetas Europeias: Sarcozy e Merkel, o par europeu mais “in” da actualidade !!

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  2. E mais despesas e impostos não piorará tudo ?
    O consumidor final (=trabalhador desempregado + outros) é que se lixa sempre.
    Os agentes no meio (importadores, bancos) limitam-se a encolher os ombros e passar a batata adiante. Ou seja aumentam preços de venda para compensar os de custo ou de exercício, mantendo as margens.
    Não disse que não é positivo, é apenas uma achega para pensarmos.

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    1. piradodamona · · Responder

      A ideia seria fazer com que os produtos importados ajudassem a financiar a Segurança Social, ao mesmo tempo que se incentivava a produção interna, pois já não seria tão prejudicada pelos preços baixos (obtidos à custa de trabalho escravo) dos produtos importados.

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