Existe uma estratégia para Portugal?


Embora já imaginasse que o facto de a Assembleia da República ter continuado, depois das últimas eleições,  a ser dominada pelos partidos que estiveram na governação do país desde o 25 de Abril iria fazer com que muitas das caraterísticas da nossa política pós revolução dos cravos se mantivessem na atualidade, confesso que, apesar disso, não estava totalmente preparado para o que está a acontecer.

Os partidos no Governo, apesar do que sobre isso disseram na campanha eleitoral, ainda mal estavam instalados, e já distribuíam entre si, para a sua clientela, os costumeiros lugares em Institutos, empresas públicas e outras instituições semelhantes, sem ligar normalmente à competência ou incompetência de quem até aí os dirigia.

Também na linha do que já é habitual, acabaram-se com certos projetos só porque eram do outro partido e mudaram-se apressadamente nomes e estruturas, aparentemente só para marcar a diferença. Num país em que tanto se pede ao cidadão comum para poupar, não seria razoável que o próprio Governo se refreasse de mudar, por exemplo, desnecessariamente, os nomes de certas instituições, mesmo que elas passassem a assumir funções algo diferentes daquelas que assumiam até aqui? É que mudar o nome implica despesas na criação da nova designação, na substituição de impressos, letreiros, registos, etc.

Até o acordo ortográfico, um tratado internacional celebrado em 1990 (já lá vão 21 anos!) parece estar agora sob a mira do executivo, atendendo à forma frouxa e entediada como se reagiu às diatribes de Vasco Graça Moura.

Mas, pior do que isto, assiste-se à implementação apressada de uma política neoliberal desumana que abstrai da situação real em que as pessoas se encontram para promover apenas uma economia de mercado, que se acredita, ingenuamente, irá resolver a médio prazo (já que no curto todos admitem que vai piorar) os problemas dos portugueses.

Boquiaberto, tenho assistido a um desinvestimento no ensino, exatamente num momento em que a União Europeia aposta na Sociedade do Conhecimento; a um desinvestimento nas energias renováveis, numa altura em que a maior parte dos países, a começar pela nossa vizinha Espanha, faz grandes investimentos nessa área e depois de Portugal ter conseguido ser um modelo nessa matéria; e a uma aparente (ainda tenho esperança que ela acabe por aparecer…) falta de estratégia para um desenvolvimento positivo do país.

De facto, aparentemente, o grande objetivo da atual governação é embaratecer de tal forma a mão-de-obra portuguesa que se torne atrativa para o investimento estrangeiro.

Sem questionar que essa possa ser uma estratégia de curto prazo, discordo em absoluto que a queiramos transformar na única e principal estratégia.

Antes, queríamos vender o sonho de um país superdesenvolvido. Agora parece que só queremos vender mão-de-obra barata de trabalhadores desqualificados.

Será que não conseguimos encontrar um equilíbrio?

Por outro lado, chegamos ao ponto do Presidente da República, num país em que uma parte apreciável da população ganha menos de quinhentos euros mensais e em que a distância entre ricos e pobres não para de crescer, se queixar publicamente dos cerca de dez mil euros que ganha, dizendo não saber se vão chegar para suportar as suas despesas; de um primeiro ministro nos dizer que os políticos estão a ganhar pouco (já pensou comparar a situação portuguesa com a dos países nórdicos?); desse mesmo primeiro-ministro dizer para não sermos piegas; e de vários governantes aconselharem os jovens mais qualificados a emigrarem, esquecendo não só que essa qualificação custou muito dinheiro ao país, mas também que, agora mais do que nunca, precisamos de massa encefálica que nos ajude a sair desta crise.

Num momento em que o dinheiro escasseia, corta-se a direito em quase tudo, incluindo em serviços essenciais e em apoios para os mais desfavorecidos. Mas esquece-se a antes tão apregoada reavaliação das parcerias público-privadas que tanto dinheiro estão a consumir ao país.

Enfim, espero que daqui a algum tempo, ao comparar o atual e o anterior governos, não me venha à memória aquele velho provérbio que diz: “depois de mim virá quem bem de mim fará”. Seria sinal de que teríamos perdido outra oportunidade de transformar Portugal num país equilibrado, justo e verdadeiramente desenvolvido.

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