É o voto, estúpido*


Lamentavelmente, sempre que há eleições, há quem apareça a aconselhar as pessoas a não votarem.

Muitos desses “conselheiros” chegam ao ponto de dizer a enorme mentira de que um número reduzido de votantes pode tornar inválidas  as eleições.

Consciente de que nenhum país verdadeiramente civilizado conseguiu até agora viver sem instituições que exerçam  de forma minimamente correta os poderes legislativo (de fazer leis), executivo (de governação) e judicial (de exercer a justiça em nome da respetiva comunidade), sempre me esforcei não só por votar nas eleições para os diferentes órgãos do Estado, mas também para motivar os outros a fazê-lo, sejam eles familiares, amigos, ou simplesmente conhecidos. Confesso que me custa aceitar que haja alguém que se demita voluntariamente de um direito tão importante.

Acerca disto, quando dava formação de cidadania, costumava perguntar aos meus formandos se caso fossem proprietários de uma grande quantidade de bens dos quais dependesse o seu bem-estar e até a sua sobrevivência, mas que não conseguissem administrá-los por si sós, se nesse caso, dizia eu, contratariam para administrá-los uma qualquer pessoa, sobre a qual nada sabiam, ou que até era conhecida por ser pouco honesta.

Invariavelmente os meus formandos respondiam-me que não, que iriam pedir informações sobre essa pessoa, que teriam o maior cuidado em escolhê-la e que acompanhariam de perto o seu desempenho.

Ai sim? – dizia eu – Então porque é que quando se trata de administrar o nosso/vosso país vocês entregam, ou deixam que entreguem, a administração do mesmo a qualquer um, mesmo a indivíduos que já foram condenados por práticas desonestas?

Surgia então a velha resposta de que não adiantava ir votar porque o nosso voto de nada servia, pois ganhavam sempre os mesmos.

Quanto a isso, eu costumava responder que realmente ganhavam sempre os mesmos, mas exatamente porque os que poderiam mudar a situação não iam votar. Dizia-lhes ainda que era evidente que sozinhos não poderiam mudar nada mas que se houvesse um grande número de pessoas a votar haveria uma grande diferença.

Dizia-lhes ainda que outro problema era a conversa sobre o “voto útil”. As pessoas que votavam eram induzidas a não votar em alternativas porque lhes era dito que seria um voto perdido, dado que essa alternativa não tinha nenhuma hipótese de ganhar.

Explicava-lhes então que se seguíssemos essa filosofia é que não valeria a pena votar, pois dessa forma seriam, de facto, sempre os mesmos a vencer. Acrescentava também que fazer aparecer nos órgãos colegiais, em que há diferentes grupos com diferentes ideias, como é o caso dos Parlamentos, indivíduos com novas perspetivas e que levantassem novas questões era sempre uma forma de contribuir para a mudança e, no mínimo, de manifestar desagrado quanto aos que lá estão. Por fim, em tom de brincadeira, lembrava-lhes que o nosso voto é tão importante que os políticos nas campanhas eleitorais até se dispõem a dançar com qualquer um, nem que seja com uma peixeira (sem qualquer ofensa às mesmas) que, com a roupa de trabalho vestida, tresanda a peixe…

Vem isto a propósito das últimas eleições.

Parece que, finalmente, o eleitorado começa a perceber que tem que procurar alternativas e fazer surgir na ribalta política novas caras que contribuam para a mudança que todos desejamos.

Repare-se agora nas reações aos resultados destas eleições dos partidos que têm alternado no poder nos últimos quarenta anos. O que os preocupou não foi que votasse tão pouca gente (coisa já habitual no nosso país quando se trata do Parlamento Europeu pois a maioria da população ainda não percebeu a enorme importância deste órgão). O que os deixou transtornados e deu origem ao verdadeiro terramoto político que está a acontecer no PS e a outras movimentações bastante mais discretas dentro do CDS e do PP, foi a perda de lugares no Parlamento, com a consequente diminuição da sua influência e do número de lugares a distribuir pelos seus correligionários e as implicações que estes resultados poderão ter nas próximas eleições legislativas.

Esperemos  agora que Marinho Pinto, a grande surpresa destas eleições, não seja um fenómeno passageiro e assuma verdadeiramente o papel (nada populista, ao contrário do que sistematicamente lhe apontam) de lutar para que Portugal se torne uma verdadeira democracia em que as instituições funcionem e não estejam reféns de pequenos grupos de influentes indivíduos que são quem, na sombra, efetivamente dirige o país).

Esperemos também que – finalmente! – os portugueses percebam a importância de votar e passem a fazê-lo com mais frequência e com mais cuidado. A política é uma nobre atividade quando exercida por gente digna e, felizmente, a nossa História inclui muitos políticos de elevada craveira, como é o caso, por exemplo, do General Ramalho Eanes, para citar apenas um, ainda vivo e conhecido de todos nós.

O futuro dos nossos filhos, depende da nossa atitude atual. Que mundo é que lhes queremos deixar? Fica aqui esta pergunta para vossa reflexão.

__________________

* – Adaptação da frase “É a Economia, Estúpido” utilizada na primeira campanha eleitoral de Bill Clinton para presidente dos EUA.

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