A formação em Portugal: o rei vai nu.


A Clara chegou. Tímida, mas determinada.
Olhou em volta, apresentou-se, perguntou se sempre podia participar gratuitamente numa aula, sentou-se por fim.
Ao longo da sessão foi levantando algumas questões pertinentes, entusiasmou-se com algumas tarefas e foi descontraindo.
No final, pediu para falar com a formadora.
Disse-lhe que queria continuar, que tinha gostado, que já andava há bastante tempo à procura de uma coisa assim e que viera a medo, convencida que ia ser mais do mesmo.
– Mais do mesmo? – Perguntou a formadora.
A Clara baixou um pouco a voz, como se fosse fazer uma confidência e disse-lhe que tinha chegado a frequentar um curso em que os formadores acabaram por dizer aos formandos que não sabiam nada daquilo que estavam a ensinar, mas que lhes tinham dito para darem aquela formação e eles ali estavam, sem terem tido a mínima possibilidade de se prepararem devidamente.
A formadora escutava-a com um sorriso.
– Não imagina o que se passa por aí com a formação nesta área. Nós queremos aprender qualquer coisa e ninguém nos ensina. Mas desta vez já percebi que estou no sítio certo.
– Espero que sim, mas fico a aguardar o seu veredito.
Despediram-se e a jovem Clara saiu, num passo miudinho e elegante. Durante alguns segundos o bater dos seus saltos ecoou no patamar ladrilhado e depois fez-se silêncio.
A formadora sentou-se um pouco. Pelo seu cérebro perpassaram milhares de imagens de um passado cada vez mais distante mas que ainda a angustiava.
Lembrou-se daquelas sessões em que o diretor de um dos centros de formação onde trabalhara lhe dizia, semana após semana, que ela e os colegas tinham que atingir determinados números de aprovações, sob pena de ficarem sem trabalho, esquecendo deliberadamente que esses volumes eram inatingíveis no tempo disponível, dadas as caraterísticas dos formandos. Lembrou-se também do sorriso escarninho desse diretor quando lhes dizia que as metas tinham que ser atigindas a todo o custo, “mas sem pôr em causa a qualidade da formação”. Recordou ainda quando uma vez se encheu de coragem e lhe disse que o que lhe estavam a pedir era impossível e foi acusada de falta de atitude.
Falta de atitude? A expressão ainda a revoltava. Para aquele indivíduo falta de atitude era dizer-se que se queria fazer um trabalho sério, que não se queria dar certificados a quem nada sabia, que se sentia mal a enganar as pessoas e a trabalhar apenas para a estatística.
Nesse dia tinha ficado doente. Não, não estou a utilizar uma força de expressão. Tinha ficado mesmo doente. Com febre, com arrepios, com dores em todo o corpo. Mesmo assim continuou a trabalhar, que os trabalhadores independentes não se podem dar ao luxo de ter pequenas doenças.
Mais tarde, um colega de equipa desabafou com ela.
– Não penses que és a única a sentir-se assim. Aqui todos sentimos o mesmo. Mas o que é que podemos fazer? A maior parte de nós – como tu – tem família em casa dependente do dinheirito que para lá possamos levar. Tornaram-nos mercenários e é assim que temos que ser…
Ele tinha razão, havia concluído ela. Por isso, engoliu a revolta, escondeu bem no fundo do peito o desgosto de se sentir inútil e desonesta e assinou, dentes cerrados e mão firme, centenas de pautas de avaliação das quais discordava.
Mas não se acomodou, tentou arranjar outros lugares onde dar formação. Em 90% deles o espírito era o mesmo. As direções queriam apenas uma coisa: “resultados”, o que significava aprovações a todo o custo.
Por fim, quando já lutava com uma depressão nervosa que quase a destruíra, uma pequena herança proporcionou-lhe os meios para abrir uma pequena escola. Sua. Sem metas, nem falsidades, onde não havia diretores a acusá-la de falta de atitude. Em que ela só passava certificados a quem efetivamente tinha aprendido.
Para surpresa de muitos estava a ser um sucesso. Os alunos gostavam e iam ficando, apesar de terem que pagar para aprender, ao contrário do que acontecia nos outros lugares por onde andara.
Finalmente começava a sentir-se realizada.
Levantou-se, deu uma amorosa olhadela à pequena sala onde trabalhava e saiu.
Na rua, uma suave brisa de verão afagou-lhe a face. Respirou fundo. Só tinha tido 15 dias de férias, mas que bem estava!…
Subitamente, porém, o peito apertou-se-lhe. Lembrou-se de novo do que momentaneamente tinha esquecido: que a maior parte da formação dada no nosso país é um logro e que os jovens e alguns menos jovens é que estão a ser as suas vítimas. Que estamos a comprometer irremediavelmente o futuro de Portugal. Que é tempo de nos juntarmos àqueles que já gritam: o rei vai nu.
Chegada a casa dirigiu-se ao seu computador e começou a escrever: A Clara chegou. Tímida…

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2 comentários

  1. Achei muito interessante o texto e aqui vão os meus parabéns pela forma e conteúdo. Indicia, na verdade, o que nos últimos anos tem ocorrido com muita da formação que se vai ministrando em Portugal. O que importa são os números para a estatística …quanto aos objetivos, aos conteúdo, e aos efeitos concretos da formação … fica nos dossiers pedagógicos…para efeitos de financiamento…

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    1. Obrigado pelo comentário, mais importante ainda por vir de um formador de alto gabarito, com créditos bem firmados. Infelizmente, em Portugal, o “parecer” continua a ser muito mais importante do que o “ser”… Até quando?

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