Espírito associativo precisa-se


Há alguns dias deparei-me com uma notícia na Renascença com o título “Padres alertam para “drama” na região do Douro”.
Li-a com muito interesse, pois estou ligado ao Douro por vários motivos, entre eles por ali ter passado algumas das melhores férias da minha vida e ter alguns amigos daquela região.
Curiosamente, um dia antes, havia escutado na TSF uma entrevista a Olga Martins, uma enóloga que é administradora delegada da Lavradores de Feitoria, Vinhos de Quinta, S.A., empresa que, segundo aquela estação de rádio, já ocupa um lugar entre as 10 maiores exportadoras de vinhos da região.
As duas notícias não podiam ser mais contrastantes: a primeira alerta para a miséria crescente em que vivem os pequenos e médios produtores de vinhos na região do Douro. A segunda, é uma história de sucesso, cheia de “glamour”, que deixa perceber que a entrevistada tem um elevado nível de vida, apesar de depender também da comercialização dos vinhos daquela região.
Apesar do violento contraste que referi, não fiquei surpreendido.
Durante mais de duas décadas acompanhei a vida de um setor económico caraterizado pela existência de muitas pequenas e médias empresas, a maior parte delas de natureza familiar.
Tive, pois, oportunidade de me aperceber que os pequenos produtores são facilmente explorados pelos grandes comerciantes que obtêm chorudas margens de lucro ao conseguirem “impor” aos produtores, desesperados por vender os seus produtos, preços de aquisição e condições de pagamento verdadeiramente ruinosas para estes.
O que acontece é que, por falta de meios económicos e/ou de conhecimentos, ou até de sensibilidade comercial, os pequenos produtores não conseguem encontrar mercados onde colocar os seus produtos, ficando à mercê daqueles que encontraram esses mercados.
Não raras vezes o comerciante consegue até aparecer perante o comprador como se fosse ele próprio o fabricante. Lembro-me, por exemplo, da profusão de comerciantes de ourivesaria que se anunciam junto do público como “ourives fabricantes”, quando nem sequer uma simples argola de mola seriam capazes de aplicar…
Esta espécie de fatalidade a que os pequenos produtores parecem sujeitos, poderia ser, porém, facilmente ultrapassada. Bastaria que eles pusessem de parte as eternas rivalidades e passassem a cooperar entre eles, aproveitando até algumas instituições que já existem.
O Senhor A não consegue ir sozinho a uma feira onde poderia encontrar compradores? Pode propor à sua associação empresarial a organização de uma participação coletiva que sairia mais barata para todos.
O mesmo senhor recebe uma encomenda que não consegue satisfazer porque não tem dimensão para isso? Pode fazer um acordo com outros produtores para satisfazerem a encomenda em conjunto.
Para modernizar e embaratecer a produção é necessário adquirir equipamentos muito caros, inalcançáveis por pequenos produtores? Estes podem associar-se e adquirir e utilizar esses equipamentos em conjunto.
As possibilidades do associativismo são imensas. Tantas, que poderia escrever muitas páginas sobre o que se poderia fazer em parceria.
Contudo, não obstante a evidência do que acabo de afirmar, os pequenos produtores continuam a morrer sozinhos, num qualquer canto escondido, abandonados à sua sorte e não raras vezes maldizendo a sua associação empresarial por não os ter ajudado, quando, afinal, foram eles que não souberam tirar partido dessa estrutura…
Já muitas vezes refleti sobre este assunto e penso que, além das pequenas mafias instaladas – consentidas por uma população inculta e subserviente – que tudo fazem para destruir o espírito associativista no nosso país, um dos nossos principais problemas é a educação que recebemos, que não fomenta esse espírito.
Há, por isso, que incluir nos programas escolares atividades que promovam o associativismo e explicar aos jovens, desde muito cedo, as vantagens da cooperação.
Por seu turno, os governantes, em vez de estimularem a feroz competição que atualmente existe entre as pessoas e as empresas, deveriam fomentar o associativismo em paralelo com o espírito empreendedor.
É que uma sociedade em que as pessoas e as empresas cooperam entre si é seguramente uma sociedade mais forte e potencialmente mais rica.

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