Serei Charlie?


Confesso-vos que gostaria de poder afirmar convictamente, como muitos milhões têm feito, que sou Charlie. A verdade, no entanto, é que não sei se o posso fazer.

Não porque não seja contra o terrorismo e contra os radicalismos de qualquer natureza. Não porque não defenda a liberdade de expressão. Apenas porque, de facto, não me consigo sentir identificado com uma revista que sistematicamente ridiculariza as principais religiões e em particular a religião muçulmana.

Que fique bem claro, contudo, desde já, que não sou daqueles que dizem que “eles estavam a pedi-las”. Nada justifica, para mim, a barbárie cometida.

O que acontece é que – chamem-me o que quiserem – sempre achei que fazer piadas simplesmente à custa das crenças, das raças, das ideologias políticas ou das características físicas dos outros é uma forma pobre e fácil de ser engraçado. É também, muitas vezes, uma forma preconceituosa de estar, não raras vezes encobridora de sentimentos de insegurança. Faz-me lembrar a chacota que os miúdos fazem na escola ao gordo, ao magro, ao pequeno, ao “caixa de óculos”, ao feio, etc, etc.

Para mim, aquilo que tem verdadeira piada é a crítica inteligente e divertida que põe a nú o ridículo das coisas sem ofender ninguém. Só que essa não é nada fácil. Não existem, de facto, muitos Charlie Chaplin…

Se eu sei que alguém se sente ofendido com o que eu vou dizer ou fazer, não terei a obrigação de me refrear? A minha liberdade de expressão não termina perante o direito dos outros ao respeito?

A verdade é que cada sociedade tem a sua sensibilidade própria, traduzida, inclusive, em regras penais.

Todos estamos com certeza de acordo que as injúrias devem ser proibidas e punidas. Não nos apercebemos, no entanto, que aquilo que nós e a comunidade em que nos inserimos consideramos como injúria pode não ser considerado assim por outras pessoas e outras comunidades. Por isso é que os juízes avaliam a sensibilidade da vítima, para tentarem perceber até que ponto é que ela se terá sentido ofendida e qual a amplitude dos danos morais que sofreu. E o inverso também é verdade: aquilo que nós consideramos aceitável pode não o ser para outros.

Desde pequeno sempre ouvi dizer que “o respeitinho é muito bonito”. Com o passar dos anos cada vez mais me convenço de que não só é bonito como é a verdadeira chave para a uma saudável convivência entre os povos.

Assim, serei de facto Charlie se isso significar fazer parte do grupo de pessoas que estão indignadas com o execrável massacre levado a cabo na redação do Charlie Hebdo. Não serei, porém, Charlie se isso significar subscrever o comportamento daquele jornal.

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2 comentários

  1. Anabela Ramos · · Responder

    Assino por baixo Toni, concordo com tudo. Expressas-te muito bem e representas os sentimentos e respeito que muitas pessoas ainda sentem, por todas as raças e crenças culturais e religiosas. Parabéns.

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    1. Muito obrigado, Bélinha, fico feliz por saber que estás de acordo comigo.

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