Alexis Tsipras: uma boa estratégia ou ingenuidade política?


tobias-Flag-of-Greece   Se as previsões meteorológicas no mundo atual são cada vez mais difíceis, o mesmo acontece com as previsões políticas.

Vem isto a propósito do que está a acontecer com a Grécia.

Embora me tenham certamente escapado muitos comentários sobre a situação grega, li, apesar de tudo, muitos deles e não me lembro de alguém ter antevisto uma situação como aquela em que presentemente nos encontramos.

Dá-me a impressão que as duas partes em confronto pecaram (pecam ainda, talvez) por excesso de confiança.

O governo grego acreditou que não sendo do interesse da Europa a queda da Grécia, aquela acabaria por ceder às suas exigências. Os credores, por seu turno, sabendo que a Grécia estava perto da asfixia económica, acreditaram que era uma questão de tempo e ela acabaria por se render, aceitando as suas condições para receber o fluxo de capital de que tão desesperadamente necessita.

Desta forma, foi-se de intransigência em intransigência até à decisão do governo grego suspender as negociações e convocar um referendo sobre o assunto.

Sendo qualquer governo de um país democrático apenas o representante do respetivo povo, que é em quem reside a soberania da nação, a atitude de Alexis Tsipras até faz bastante sentido. No fundo, é como se alguém que está fazer uma difícil negociação em nome de outro, pedisse para a suspender a fim de consultar esse outro que representa.

Só que se isto é absolutamente lógico quando se trata de negociações entre pessoas, as coisas são bem mais difíceis quando quem negoceia são países e instituições internacionais.

De facto, estando a esmagadora maioria do povo totalmente alheada dos assuntos do Estado e dos muitos aspetos que lhes estão subjacentes e não sendo possível, de modo algum, explicar-lhe numa semana as principais questões envolvidas na negociação, o mais provável é que as pessoas votem de forma pouco esclarecida. E obter um voto pouco esclarecido sobre um problema desta dimensão não é com certeza o mais desejável.

Assim, a menos que o governo helénico esteja convencido de que consegue fazer com que o povo vote da forma que lhe interessa a ele, governo, a decisão de lhe pedir uma opinião pode não ter sido a mais acertada para o benefício do país.

Além disso, sendo a Grécia, neste momento, um caldeirão prestes a explodir e ao qual se continua a adicionar energia, o referendo pode ser o detonador de graves convulsões sociais que facilmente podem fugir do controlo das autoridades, com nefastas e imprevisíveis consequências para a Grécia, para a Europa e até para o Mundo.

Por outro lado, se o “sim” ganhar, o governo perderá legitimidade e será provavelmente forçado a demitir-se. Esse será mais um cenário complicado, particularmente para o povo grego, que já se encontra numa situação muito fragilizada e que depois do referendo estará ainda mais dividido. É que me parece inquestionável que qualquer que seja o resultado do referendo, haverá um considerável agravamento da fratura entre os mais conservadores e mais dispostos a fazer concessões aos credores internacionais e os que defendem a posição do atual governo. Isto pode conduzir a que durante algum tempo, muito mais do que aquele que se mostra indispensável, não exista um governo capaz de implementar as medidas necessárias à retoma económica.

Mas há também a possibilidade do “não” ganhar e nesse caso a posição de Alexis Tsipras, neste momento numa situação muito complicada, quer perante os credores, quer perante o seu partido e o próprio povo, melhora consideravelmente. Este referendo vai ser, para o bem ou para o mal, o que vai definir a sua futura carreira política.

É por isso que, confessando-me bastante perplexo, me pergunto se estamos perante uma excelente estratégia política ou, pelo contrário, perante a manifestação de uma enorme ingenuidade.

Estando Portugal numa situação de particular vulnerabilidade perante esta crise, faz todo o sentido que neste fim de semana reservemos algum tempo para seguir o que vai acontecer na Grécia. Se não for pelos gregos que seja por nós.

Os mais interessados neste tema podem ler aqui (em inglês) o último discurso de Alexis Tsipras.

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